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Jul
09

nove de julho

9Todos os dias eles vêm. Pela manhã, pedem o usual – um pão na chapa e um pingado.  Ela reclama que não tem ganchos para pendurar a bolsa, ele olha para seus chinelos e pensa como pôde sair de casa de havaianas. Riem. Ela lhe conta besteiras de seu dia, ele fala de sua banda. Acordaram há pouco, apesar de ser quase hora do almoço. Sustentam feições de quem não dormiu a noite inteira. Juntam mãos, dividem a conta e vão.

Semanas depois aparecem. Por hábito, quase encostam seus dedos num afago. Se abraçam estranho, veem os terceiros que nunca haviam notado e pensam se eles perceberam.

Ela já não mais ri. Encosta o braço ocasionalmente nele e pede desculpas. Sorri meio torto, fala pra dentro aquilo que não tem coragem de perguntar. Ele rumina culpa junto com o bife.

Poderia me passar o guardanapo? – é o máximo que ela consegue dizer. Ele não responde, deixa se perder no meio daquelas revistas que lhe falam da vida que não tem. Ele quer o mundo, ela quer o guardanapo. Ele quer um amor de pintar paredes, ela quer uma coca. Ele já não canta mais samba e amor, ela não mais insiste para ouvir.

Vão cambaleantes, numa derrota assumida. Onde a gente se perdeu? Caminham. Ela irá se apaixonar de novo, ele tentará encontrar na próxima aquele amor, sabe, aquele? Irão um dia se encontrar, inevitavelmente. Vão sorrir. E nas bocas, aquele gosto de pão na chapa e pingado que amor algum lhes vai dar.


1 Resposta para “nove de julho”


  1. 1 Tatiane Ribeiro
    Agosto 10, 2009 às 6:45 pm

    Pois é, mas ainda resta o gosto do pingado e do pão na chapa. E o sorriso, e o que já se viveu. E se um dia tiver que reviver o que um dia já foi o “presente”, talvez seja novo. E, quem sabe, lá já tenha lugar para pendurar a bolsa e ele não sinta mais vergonha de sair de chinelos…


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