25
Jul
09

nove de julho

9Todos os dias eles vêm. Pela manhã, pedem o usual – um pão na chapa e um pingado.  Ela reclama que não tem ganchos para pendurar a bolsa, ele olha para seus chinelos e pensa como pôde sair de casa de havaianas. Riem. Ela lhe conta besteiras de seu dia, ele fala de sua banda. Acordaram há pouco, apesar de ser quase hora do almoço. Sustentam feições de quem não dormiu a noite inteira. Juntam mãos, dividem a conta e vão.

Semanas depois aparecem. Por hábito, quase encostam seus dedos num afago. Se abraçam estranho, veem os terceiros que nunca haviam notado e pensam se eles perceberam.

Ela já não mais ri. Encosta o braço ocasionalmente nele e pede desculpas. Sorri meio torto, fala pra dentro aquilo que não tem coragem de perguntar. Ele rumina culpa junto com o bife.

Poderia me passar o guardanapo? – é o máximo que ela consegue dizer. Ele não responde, deixa se perder no meio daquelas revistas que lhe falam da vida que não tem. Ele quer o mundo, ela quer o guardanapo. Ele quer um amor de pintar paredes, ela quer uma coca. Ele já não canta mais samba e amor, ela não mais insiste para ouvir.

Vão cambaleantes, numa derrota assumida. Onde a gente se perdeu? Caminham. Ela irá se apaixonar de novo, ele tentará encontrar na próxima aquele amor, sabe, aquele? Irão um dia se encontrar, inevitavelmente. Vão sorrir. E nas bocas, aquele gosto de pão na chapa e pingado que amor algum lhes vai dar.

02
Jun
09

Fingi na hora rir

“Vai, deixa todo esse rancor pra trás
Que a vida vem sorrindo pra nós dois”

Há anos você tinha sumido em mim. Neste apartamento silencioso, resta só a cama de casal. Este, que era meu sonho quando menina: um lugar meu. Uma cama na qual pudesse me esbanjar na minha independência – e no que, mais tarde, descobri ser solidão. Aquela cama, antes pequena para meus planos, hoje está cheia de quereres mal dormidos.

1Lembrei-me de nossas tardes, que se repetiram por muitas tardes. Da primeira vez que senti seu peso sobre meu corpo. E teu sorriso de manhã. Junto pálpebras, rasgo a boca num sorriso meio torto. Nunca pude ser aquela com quem sonhou, a mulher com quem somaria moedas para ir ao cinema e pintaria a parede e se melaria, rindo, e pra quem tocasse piano, já velho e com quem se tornasse mais bonito.

Não dividimos planos, filhos, cor de paredes. Neste capítulo de nãos, éramos apenas um desses casais que cruzam a Paulista de braços dados, com cigarros e sarcasmo. Talvez fôssemos só mais um, mas não sei o que fui depois de nós. Segui meu rumo, você, o seu. Soube por um amigo em comum que havia se tornado editor de uma revista para pseudo-cults. E imaginei seu ceticismo diante daqueles que fingem um conhecimento que não têm. E pra você, menino da periferia de São Paulo e com cara de garoto com intercâmbio na Inglaterra, pareceu-me divertido demais pra segurar o riso de cantos de lábios.

Larguei o jornalismo meses após rompermos. Fui recepcionista, tentei cantar, fiz meu curso de massagem, dei aulas de inglês e espanhol. Morei três anos fora, pela América Latina e Espanha. E agora, minutos após essa proposta de me casar, pensei em você. Será que tem namorada, esposa, filhos? Será que conseguiu gravar seu CD, escrever seu livro?

Achei sua carta, aquela que há muito me escreveu. Não me recordava das palavras, mas elas nunca fugiram de mim.

23
Jan
09

Falta

“Amor, veja bem: arrumei alguém chamado saudade”

Terminar nem sempre é tão simples quanto apertar o start de um relacionamento. E não digo pela empolgação de início, nem pela ânsia de conhecer cada tonalidade e cheiro do outro.  Mas é porque tem tanto do outro em você que por um final nisso parece encerrar uma parte tua. E agora é assim: você e seus cigarros; eu e minha falta de convicção.

fotos_ni-3951Isso vai mudar, me disse.  Sim, eu sei – respondi quase certa que sabia. Você vai sentir minha falta, e não vai mais rir de nós, nem olhar no branco dos olhos e enxergar o mundo todo pintado com as cores mais bonitas, não vai roçar pés, nem vai cantar todas as músicas dos Los Hermanos aos brados, não vai gostar de outros ombros e não vai fazer essa cara de satisfação e vergonha e prazer todas as vezes que a cama – ou sofá, banheiro ou chão – nos encontra em compasso.

Por vezes seria tão mais fácil para nós se as palavras se escondessem bem, se enterrassem na terra úmida em vez de cobrir a cabeça e acabar por nos fazer tropeçar em todo o resto. Me dói te ver partir assim, braços inertes, vontade ausente.

Talvez seja melhor. Me doeria muito mais vê-lo deixar esse apartamento com  o sorriso de sempre – e eu aqui, quase desmontando porque não consigo mais retribuir com a mesma sinceridade.

26
Dez
08

Sentimental.

Começa assim. Você chega em um lugar, pede café e espia a mesa ao lado. Com interesse genuíno, vai construindo seu mundo com pedaços alheios, em uma mistura que pode dar certo ou que irá fazer sua alma dobrar a cada esquina. É assim que começa um dia. E todos eles começam a se parecer. Até um ponto que fica difícil saber onde um começa e outro termina.

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1

Dia desses, quando a saudade abriu, violenta, a porta do apartamento, me furtei a ouvir ecos daquelas caixas de mudança. Você não devolveu minhas chaves. E isso me atormentou por dias, semanas. Até que, numa tarde morna de setembro, a dor parou de doer. E segui minha vida.

Encontrei você algumas semanas depois, com seu mais novo amor. Estavam bobos, felizes. Você ainda não era um grande escritor, um músico ególatra ou um intelectual de merda. Dei conta que talvez você estivesse no mesmo ponto em que nossos quereres se desencontraram. Talvez eu fosse ainda a mesma, só que sem tuas risadas das idiotices que eu fazia. E isso doeu pra cacete.

Nos vimos, trocamos sorrisos, como quem troca cupons promocionais, e cada um foi para um corredor do supermercado. Ela era bonita, simpática de um jeito impulsivo, e olhava para sua cara com entusiasmo de criança. Sabia que não iriam se casar, nem nada do tipo. Não iria fazer planos como os nossos, não pensaria em nomes de filhos ou na cor das paredes. Mas senti que meu salto estava atolado na minha garganta.

Assumindo o ridículo, fui tentando encontrar pedacinhos de você em amigos, transas, casos, namoricos. E aquilo trazia uma angústia tremenda porque nunca era um inteiro. Eram sempre pedaços que não formavam um ser, que não eram você.

Hoje estou de mudança do nosso apartamento. Daquele que passamos noites acordados, fazendo o que o falso moralismo burguês provavelmente não gostaria de saber. De tardes estupidamente quentes, com o mundo ruindo de calor e nós lá deitados com dedos mindinhos juntos e um balde de gelo e água e cerveja. Do lugar em que as promessas começaram a tomar conta do que tínhamos. E elas ficaram tão grandes que passaram a ocupar o apartamento mais do que nós mesmos.

Fecho a caixa com seus chinelos, sua camiseta de pseudo-intelectual, toalhas e com aquele chaveiro, cujo barulho me fez tantas vezes sofrer, sorrir, correr para me vestir, correr para me despir. Hoje, todos aqueles casos ficam numa caixa, fechada com esforço para sufocar a sua falta.